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Formando-se leitor e formando os leitoresFormando-se leitor e formando os leitores

Formando-se leitor e formando os leitores É comum que leitores inveterados tenham muitas histórias para contar a respeito de sua experiência doméstica com a leitura e bem pouco a dizer acerca de sua relação com os livros no espaço escolar. Certa vez ouvi uma história que retrata bem o que a leitura pode representar para alguém pequeno, que ainda não a domina por si mesmo.

A cena se passava numa antiga fazenda, onde a energia elétrica era desligada diariamente às 20 horas. A matriarca da família adorava ler novelas. Seu esposo então improvisou um sistema que permitia manter uma luz acesa. Enquanto a mãe tricotava, o pai lia capítulos e mais capítulos das fantásticas novelas. E as crianças, que eram obrigadas a deitar assim que a energia era desligada, também se deliciavam com a leitura que inundava toda a casa.

É preciso que os professores ajudem as crianças a descobrir nos textos sua face mais pessoal e prazerosa, sua dimensão mais encantadora e envolvente.

Ler, como qualquer aprendizagem, requer dedicação: por isso os alunos devem ter a oportunidade de encarar o livro como um desafio interessante que abrirá portas, não só para o conhecimento mas também para o entretenimento e a diversão.

A prática da leitura na escola precisa se assemelhar à prática da leitura fora da escola. As crianças precisam saber que lemos por diferentes razões e que não lemos todos os textos da mesma forma.

Ler para as crianças é uma atividade fundamental: elas merecem que os adultos leiam diariamente para elas. É ouvindo contos, fábulas, mitos, notícias ou poemas, que elas podem ter acesso a tudo que a escrita representa, além de aprender muito a respeito da linguagem que se usa para escrever.

Antes de ler um texto para a classe, o professor precisa conhecê-lo, para que possa comentar as razões de sua escolha e demonstrar seu interesse de leitor em compartilhar suas descobertas.

Para motivar a classe, é possível criar situações que despertem uma emoção especial: por exemplo, ler uma história "de medo" em um lugar escuro, modificando a entonação da voz.

Ler não deve ser uma atividade extra - quando sobra tempo, quando a classe está muito agitada ou quando faltaram muitos alunos. A leitura precisa ocupar horário nobre da aula.

Formando-se leitor e formando os leitores Muitos alunos talvez não tenham muitas oportunidades, fora da escola, de familiarizar-se com a leitura; talvez não vejam muitos adultos lendo, talvez ninguém lhes leia livros com freqüência. A escola não pode compensar as injustiças e as desigualdades sociais que nos assolam, mas pode fazer muito para evitar que sejam acirradas em seu interior. Ajudar os alunos a ler, a fazer com que se interessem pela leitura, é dotá-los de um instrumento de aculturação e de tomada de consciência cuja funcionalidade escapa dos limites da instituição.

Mesmo quando as crianças ainda não sabem ler, a sala de aula deve ter um espaço com livros, revistas, jornais, folhetos e histórias em quadrinhos, para poderem folhear a vontade, sem que alguém fique perguntando o que estão entendendo.

Enquanto isso, é importante que o professor também leia seu próprio livro, revista ou jornal. É imprescindível que as crianças percebam que ler é uma atividade importante e que o adulto também gosta de realizá-la.

Nós, alunos e professores, precisamos descobrir - ou redescobrir - que ler pode, e deve, ser uma maravilhosa aventura.

O homem constrói casa porque está vivo, mas escreve livros porque é mortal. Ele vive em grupos porque é gregário, mas lê porque se sabe só. (...) De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas como nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade.

Daniel Penac, in Como um romance


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