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Cidadania se aprende na escolaCidadania se aprende na escola

Cidadania se aprende na escola Desmotivada e sem recursos, a rede estadual de educação está sucateada e não tem a menor condição de atender de maneira razoável aos estudantes que a procuram. Certo? Errado.

A doença é grave, o paciente tem de ser tratado, mas a escola pública pode e deve voltar a exercer um papel central no nosso sistema educacional, desde que se faça uma avaliação correta dos seus problemas.(...)

A questão central tem a ver com a própria prática de cidadania. A escola pública é freqüentemente vista como um órgão governamental, como um aparelho do Estado, não como um órgão da sociedade que visa permitir oportunidades iguais a todos.(...). É comum o professor nada saber do bairro onde trabalha, dos alunos que educa, da vida real das pessoas que vivem na região. Poucas comunidades zelam por suas escolas, exatamente porque não as consideram suas, mas do "governo", entidade sem rosto, distante e autoritária. Escolas depredadas são apenas a face mais visível desse "desacordo" entre alunos, professores, comunidade e governo.

O caminho começa, portanto, no estabelecimento de um diálogo entre os diferentes interlocutores, para que se possa começar a pensar numa escola de e para cidadãos. Uma escola em que o aluno receba uma educação que de fato seja a síntese entre o patrimônio cultural da humanidade, no seu sentido mais amplo (que cabe ao professor bem informado e atualizado trazer), e a especificidade de sua própria cultura; em que o professor tenha condições de tratar os alunos como seres únicos a serem socializados, mas não descaracterizados; em que o prédio da escola possa ser o centro cultural do bairro com bibliotecas, acervo de jornais e revistas e até - por que não? - uma gibiteca à disposição de todos. A escola pode ser um centro em torno do qual surjam grupos de teatro, cineclubes, atividades literárias, pessoas montando papagaios ou simplesmente conversando. Por que, em fins de semana, a escola não poderia reunir senhoras para fazer tricô e bater papo, homens para jogar xadrez e dominó, jovens e crianças das redondezas?

Em nossa periferia, onde as oportunidades de lazer fora de casa são mínimas, a escola fechada é uma ofensa ao cidadão e passa, com freqüência, uma imagem de invasora. Despi-la dessa capa, torná-la útil para toda a comunidade é um desafio fácil de vencer com vontade política, competência e criatividade. (...) Afinal de contas, cidadania é participação, é ter direitos e obrigações, e, ao contrário do que muitos pensam, se aprende na escola.

Jaime Pinsky, in Cidadania e Educação

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